terça-feira, 5 de maio de 2015
Mesmo não vivendo em tempo integral na Boa Vista, estava sempre presente nos fins de semana, acompanhando todo o processo dentro da casa de farinha, onde não há barreiras sociais, que pode até existir patrão e empregado, mas sem nunca deixar de lado a tradição e o respeito mútuo com aqueles que estão ali presentes.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Visitar outras casas de farinhas para remontar as minhas memórias foi um experiência reveladora (estava com Raquel, minha mãe), para espanto meu, ao chegar na primeira me deparo com um fotógrafo chamado Pedro, ele estava fazendo beiju numa das fornalhas e veio logo me dizendo que o que eu tinha em mão era uma ferramenta poderosa (uma Nikon D700) não demorou pra ele me tirar algumas dúvidas que ainda me assombravam. Também estava lá fazendo beiju o Cinho, um primo de minha de minha mãe e por tanto meu primo em 2º grau. Após fazer alguns registros segui em direção a casa de minha tia Antônia, sabia que a casa de farinha dela estava funcionando naquele dia, para minha felicidade havia outra casa de farinha em meu caminho, era do irmão de Cinho, sem dúvida estávamos em família. Desta vez se encontrava lá, três mulheres ensacando o beiju enquanto meu outro primo de 2º grau e o filho de uma das mulheres trabalhavam no preparo. Uma dessas mulheres me conhece desde de que tinha menos de um ano de vida, Tonha, encontrar com ela foi mais surpreendente do que achar um fotografo profissional fazendo beiju. Ela não parecia ter envelhecido um ano se quer, estava exatamente como lembrava, uma mulher simples, de muita força e que sempre me foi muito receptiva.
Boa vista, “roça”, onde foram disseminados e ainda são os saberes de como trabalhar com a mandioca, desde seu plantio, até a feitura de seus subprodutos da raiz, a farinha e a tapioca são os mais conhecidos, sendo a tapioca matéria prima da qual se faz o beiju. Sem dúvida a mandioca é símbolo de experiência e identidade do povo daquela região.
(Raquel e Irací)
Inicialmente, por se tratar de um tema acerca de memórias pessoais, a ideia para minha poética viria do lugar onde estão minhas raízes: na Zona rural de Santo Antônio de Jesus, precisamente na Boa Vista. Onde a geração de minha mãe, de minha avó e muito provável que as anteriores a elas, se fortaleceram dos recursos da terra para garantir o sustento dos nossos.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
"A Câmara Clara" - Nota sobre fotografia
Em seu livro “A Camâra Clara”, Roland Barthes apresenta dois conceitos principais sobre sua percepção fotográfica, através de uma seleção de fotos, que possuem um significado único. Studium e Punctum seriam a dualidade que norteiam as fotos analisadas por Barthes, para ele studium é o interesse guiado pela consciência, pela ordem natural que diz respeito ao contexto cultural e técnico da imagem «uma espécie de investimento geral»; já o punctum tem caráter subjetivo, é um interesse que se impõe a quem olha a foto, individual e intransferível, detalhes que tocam emocionalmente o espectador, é o que instiga na foto, o que fere o apreciador «O punctum de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala)». “É um suplemento, é o que acrescenta à foto e que, não obstante já estava ali”
Barthes expõe que sem o campo emocional, não haverá interesse por fotografia. Imagens como os retratos de família, por exemplo, só possuem valor para aqueles que fazem parte daquela família. O autor demonstra não se ater tanto a esta regra e tenta elucidar ao longo do livro diversos punctums nem um pouco familiares. Tendo a morte como tema principal para suas reflexões aliado a incerteza do punctum é que se dá lugar ao espectro.
Ao se posicionar como Spectator para análise, Barthes se afasta da “foto-segundo-o-fotógrafo”. “No entanto, dessa emoção (ou dessa essência) eu não podia falar, na medida que nunca a conheci; não podia unir-me à corte daqueles (os mais numerosos) que tratam da foto-segundo-o-fotógrafo. ” (BARTHES, 1984, p.21).
“O Espectador somos nós, todos os que cotejamos as coleções de fotos nos periódicos, nos livros, nos álbuns ou nos arquivos. E aquele ou aquela que é fotografado é o alvo, a referência, uma espécie de pequeno simulacro, de eidolon emitido pelo objeto, que eu chamaria com gosto de Spectrum da Fotografia, porque essa palavra conserva, através de sua raiz, uma relação com o ‘espetáculo’ e o incorpora a esta coisa um tanto terrível que existe em toda fotografia: o retorno do morto. ”
A uma foto cujo studium não possui a presença do punctum chama Barthes fotografia unária. «A fotografia é unária quando transforma enfaticamente a «realidade» sem a desdobrar, sem a fazer vacilar (…). A Fotografia unária tem tudo para ser banal, sendo a «unidade» da composição a primeira regra da retórica vulgar (…) ». Barthes dá dois exemplos destas fotos unárias, que lhe despertam interesse, mas sem o atingirem profundamente: as fotos de reportagem em geral e as fotos pornográficas. «As fotos de reportagem são recebidas, é tudo. Folheio-as, mas não as rememoro; nelas, nunca um pormenor (em tal canto) vem interromper a minha leitura». A foto pornográfica é «como uma vitrina que, iluminada, só mostrasse uma única jóia, ela é inteiramente constituída pela apresentação de uma única coisa, o sexo: nunca há um segundo objectivo, intempestivo, que venha semiesconder, adiar ou distrair».
De toda forma, a fotografia é singular, ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente, ela é a volta do morto, corta o tempo e o espaço. Ela é pesada e única, enquanto nós somos mutáveis e múltiplos. Entretanto, existe para o fotógrafo, uma cicatriz obrigatória e necessária; e para o spectator, em cada fotografia, uma facultativa e latente ferida. De qualquer modo, parecem compartilhar a mesma dor.
“ Com a fotografia emerge um duplo aprisionado que está vivo pela ilusão de um realismo natural, mas ao mesmo tempo morto (por mais viva que a coisa representada esteja) porque aquilo que aconteceu e que está impregnado na chapa metálica não pode mais se reproduzir existencialmente. ”
terça-feira, 28 de abril de 2015
“La Jetée” de Chris Marker
É uma instigante história sobre viagem no tempo, da qual permeia o média metragem “La Jetée” de Chris Marker. Numa Paris em tempos de guerra, aprecia-se a memória de infância do protagonista de uma mulher no terminal de um aeroporto horas antes do estopim da III Guerra Mundial que destruiria a cidade numa grande explosão nuclear, memória essa que parece estar no futuro. A narrativa se dá através da sequência de fotografias, que mais se parece com uma lembrança da qual não é possível ter todos os detalhes guardados, mas sim elementos específicos por conta de um gesto ou um objeto, que se apresenta fragmentado.
Num planeta devastado, no qual a vida na atmosfera não é mais propícia ao ser humano, a alternativa que lhes cabia era de se instalar no subterrâneo. Por estarem condenados a inércia decidem buscar respostas no passado ou no futuro, induzindo outro estado de consciência no protagonista por meio de entorpecentes, afim de realizar uma viagem nos fragmentos que lhe restavam de suas memórias. Alucinado ele retorna àquela mulher, criando “um tempo sem dor ao redor”, um estado de devaneio sem distinguir claramente se está vivendo, ou se mesmo viveu tais momentos.
No ápice do filme quando herói anônimo sabe que ele é apenas uma cobaia dos cientistas e será exterminado, mergulha no limbo das memórias. Viajantes do futuro oferecem para ele a possibilidade de saltar para frente e viver em um mundo pacificado. Mas ele prefere ficar com a mulher do aeroporto de Orly das suas lembranças da infância.
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